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A few weeks prior to this interview, O grupo inteiro allowed the Research department of Het Nieuwe Instituut to experience the first rain in Caatinga (a biome in north-east Brazil) in one of our collective research sessions. Through video footage taken during the collective’s visit to the region in January 2021, we could hear the intense rainfall hitting the dry surfaces of Caatinga in Rotterdam. Although 7880 km from the location of the footage, it created a space for connection for all 15 people in the Zoom call. When on the morning of the interview a seemingly similar amount of water was falling in the Netherlands, I was reminded of the collective’s reflections on water, rain and drought already learned from their research on Caatinga.

In their engagement with the Caatinga, O grupo inteiro aims to develop regenerative relations and ways of learning emerging from nonhierarchical alliances, symbiotic attachments and mingling with the region. The collective stayed in Caatinga without a predefined research method, trying to get used and adapt to the rhythms of this biome. “When we were in Caatinga in January 2021, we saw the vegetation completely dry, with little shade and very strong sun,” O grupo inteiro reflects while talking about Caatinga prior to rainfall.

“The plants seemed dead to us, but in reality, they were in a kind of hibernation, alive and protected by many thorns. These thorns also have the function of saving energy. At the end of the month, we witnessed a rainy day and the landscape changed quickly. Within days, the vegetation was green.”

Algumas semanas antes do meu encontro digital com O grupo inteiro, o coletivo de artistas proporcionou ao departamento de pesquisa do Het Nieuwe Instituut a experiência da primeira chuva na Caatinga depois de um longo período, em uma de nossas sessões de pesquisa coletiva. Através de filmagens feitas durante a visita do coletivo à região, em janeiro de 2021, ouvimos coletivamente, desde Rotterdam, as intensas chuvas que atingiram as superfícies áridas da Caatinga. Apesar de 7.880 quilômetros de distância do local em que as filmagens foram realizadas, elas criaram um espaço de conexão entre todas as quinze pessoas na chamada Zoom. Quando, na manhã desta entrevista, uma quantidade aparentemente semelhante de água vinha dos céus da Holanda, me lembrei das reflexões do coletivo sobre a água, a chuva e a seca que aprendi em suas pesquisas sobre a Caatinga.

A partir de seu engajamento com a Caatinga, O Grupo Inteiro visa desenvolver relações regenerativas e maneiras de aprender que emergem de relações não hierárquicas, laços simbióticos e misturando-se com a região. O coletivo permaneceu na Caatinga sem um método de pesquisa pré-definido, tentando se acostumar e se adaptar aos ritmos do bioma. "Quando estivemos na Caatinga em janeiro de 2021, vimos a vegetação completamente seca, com pouca sombra e muito sol forte", reflete O Grupo Inteiro enquanto fala da Caatinga antes das chuvas.

"As plantas pareciam mortas, mas na realidade, estavam numa espécie de hibernação, vivas e protegidas por muitos espinhos. Estes espinhos também têm a função de economizar energia. No final do mês, testemunhamos um dia chuvoso e a paisagem mudou rapidamente. Em poucos dias, a vegetação estava verde”.


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2. In order to get to know Caatinga as an environment and its adherence and imposition of limits on the process of exploitation, you stayed in the territory twice during the time of the fellowship. How did you approach learning from the (human and multi-species) communities there in ways that are not knowledge-extractive?

The desire to avoid an attitude that would reproduce the colonial operation (and an extractive stance in relation to knowledge) has accompanied us since the beginning of this project. During our visits to Caatinga we maintained a neighbourhood situation and relationship, in which we included ourselves together with the other subjects (human and multi-species) that inhabit the Caatinga.

Until this stage of the project, which we consider to be a gesture of approximation, we maintain the desire to transform our understanding of the relationships we form with the Caatinga.

From the beginning of our research, we sought to approach contexts situated in Caatinga, involving networks, people, institutions, places, non-human beings and the possible diversities of this biome. The interaction with different networks was made through the indications of people we were already familiar with; from the neighbourhood relations to the curiosities aroused during the immersion, in a rhizomatic process from one node that led to another and so on. We were most interested in transforming our own relationship with the biome, instead of looking for direct representations of this context.

2. Para se aprofundar na Caatinga como ambiente potente à imposição de limites ao processo de exploração, vocês permaneceram no território por duas temporadas, durante o tempo dessa bolsa de pesquisa. Como vocês se aproximaram do aprendizado das comunidades (humanas e multiespécies) de lá, de uma forma que não fosse uma reprodução do extrativismo-cognitivo?

A preocupação com uma atitude que reproduzisse a operação colonial (e uma postura extrativista em relação ao conhecimento) nos acompanhou desde o início deste projeto. Durante nossas visitas à Caatinga a ideia seria antes produzir uma situação de vizinhança, em que nos incluiríamos juntos aos demais sujeitos que habitam a Caatinga. Até esta etapa do projeto, que consideramos um gesto de aproximação, mantivemos o desejo por transformar nossa compreensão sobre as relações que constituímos com o bioma.

Desde o início de nossa pesquisa, buscamos nos aproximar de contextos situados na Caatinga, envolvendo redes, pessoas, instituições, lugares, seres não-humanos e as possíveis diversidades deste bioma. A interação com diferentes redes foi se constituindo através das indicações de pessoas com as quais fomos nos familiarizando: em um processo rizomático de um nó que levava a outro, criaram-se as relações de vizinhança e despertaram-se  curiosidades durante a imersão. Estávamos interessados em transformar nossa própria relação com o bioma, ao invés de procurar diretamente por representações deste contexto.

4. While working through ways of living in Caatinga and thinking about what is considered ‘sufficient’, how do you then start carrying out and practising those encountered Caatinga-values in your own organisation as a collective, also after the formal fellowship finishes?

Most of the time, the conditions that make our processes and researches as a collective feasible are linked to projects and exhibitions. From the beginning, this condition imposes a commitment to a more objective and concrete result. In this fellowship, we were able to live differently with the research process, enjoying a longer time. In this way, we were able to cultivate uncertainties and undo assumptions that seemed obvious to us at the beginning of the process. We were then able to make room for experimentation, without clearly defining an end.

The times we lived through during this fellowship were intense: a political-pandemic (sanitary, environmental, economic, political-human) catastrophe in Brazil and abroad. Such events strongly inform the quality of the spaces created during a research. As well as the efforts, demands and individual and collective movements.

The serious and exhausting moment we are living through, on the personal and collective level – especially in the face of more than 460,000 deaths (and rising) in Brazil due to Covid-19 – made us understand the need to search for both life and institutional processes that value energy saving, doing the minimum and the just, while focusing on what is necessary for life to continue and regenerate on a small scale. At the moment, we seek to sustain a life in the face of what is sufficient, similar to plants and beings from the Caatinga such as mandacaru or chique-chique, which retain water, resisting long periods of drought.

All of this to also say that we reached the opposite of the imaginary backside inhabiting our desires at the beginning of the research. Such as the desire to produce a publication, a diagram of interactions and processes, sound pieces, videos, conversation circles and so many other materials and meetings.

In this case, the beta phase of an institution concerns the daily reorganisation of all the dynamics and dimensions of life, in the direction of what may be considered ‘sufficient’ for our collective and our collaborators in Caatinga right now. Thus, the sequence of our work should be oriented towards finding ways to carry out radical, small scale transformations of non-productivity in the current hegemonic ways of life (which is based mainly on consumption and maximum, excessive accumulation). This process of regeneration is one that demands, among other things, ongoing cooperation, solidarity, trust and connection.

For this Q&A, O grupo inteiro (Carol Tonetti, Cláudio Bueno, Ligia Nobre, Vitor Cesar with Enrico Rocha) answered all questions posed by Delany Boutkan collectively in a Google doc. These answers were edited down in collaboration with O grupo inteiro and Alessandra Fudoli.

Read the interview with Resolve Collective, the other 2020-2021 fellows, here.  

4. A partir dos seus estudos sobre as formas de viver na Caatinga e sobre as noções do que é 'suficiente', como vocês começaram a praticar os valores da Caatinga encontrados em sua própria organização como um coletivo, também após o término formal da bolsa?

Na maioria das vezes, as condições que viabilizam nossos processos e pesquisas como um coletivo estão ligadas a projetos e exposições. Desde o início, esta condição impõe um compromisso orientado a um resultado mais objetivo e concreto. Nesta bolsa, pudemos conviver de maneira diferente com o processo de pesquisa, desfrutando de um tempo mais longo. Desta forma, pudemos cultivar incertezas e desfazer suposições que nos pareciam óbvias no início do processo. Assim, pudemos criar espaço para a experimentação, sem a clara delimitação de um fim.

Os tempos que atravessamos durante essa bolsa foram de imensa catástrofe: sanitária, ambiental, econômica, política-humana. Tais acontecimentos influenciaram fortemente a qualidade dos espaços criados durante essa pesquisa, bem como os esforços, demandas e movimentações individuais e coletivas.

A gravidade e o desgaste do momento que atravessamos, seja pela dimensão pessoal ou coletiva, nos fez compreender, frente à radicalidade de mais de 500 mil brasileiros mortos, a busca por uma vida e pela instituição de processos que prezam pela economia de energia, pelo fazer mínimo e justo, necessário para a vida seguir e se regenerar. Buscamos sustentar uma vida a partir do que é suficiente, assim como as plantas e os seres da caatinga, como o mandacaru ou o chique-chique, que guardam água em seus corpos, resistindo a longos períodos de estiagem. 

Tudo isso para dizer que chegamos ao contrário do que imaginávamos no início da pesquisa, como a produção de uma publicação, um diagrama de interações e processos, peças sonoras, vídeos, rodas de conversa e tantos outros materiais e encontros.  

Neste caso, a “fase beta” de uma instituição diz respeito à reorganização diária de todas as dinâmicas e dimensões da vida, na direção do que pode ser considerado 'suficiente' para nosso coletivo e nossos colaboradores na Caatinga neste momento. Assim, a sequência de nosso trabalho deve ser orientada para encontrar formas de realizar transformações radicais e em pequena escala de não-produtividade nos atuais modos de vida hegemônicos (que se baseiam principalmente no consumo e na acumulação máxima e excessiva). Este processo de regeneração é um processo que exige, entre outras coisas: cooperação contínua, solidariedade, confiança e conexão.

Para esta entrevista, O Grupo Inteiro (Carol Tonetti, Cláudio Bueno, Ligia Nobre, Vitor Cesar com Enrico Rocha) respondeu coletivamente a todas as perguntas feitas por Delany Boutkan em um documento do Google. Estas respostas foram editadas em colaboração com O Grupo Inteiro e Alessandra Fudoli.

Leia a entrevista do Resolve Collective aqui.  

Delany Boutkan, Marten Kuijpers, Klaas Kuitenbrouwer, Setareh Noorani
Alex Walker